O Strava não “Straga”. O que estraga é seu comportamento competitivo

Strava: aplicativo de celular para praticantes de modalidades esportivas realizadas ao ar livre que usa o GPS para tomar nota de seus esforços.

A ideia é simples: ligue o GPS, dê “iniciar” no aplicativo, pedale, chegue em casa e pronto. Você terá em mãos a distância percorrida, ganho de elevação, tempo pedalado e tempo parado. Caso use a versão premium do app e tenha um monitor cardíaco, há ainda mais dados.

Essa descrição não deve ser novidade pra ninguém. Existem dezenas de outros gadgets e aplicativos para celular que fazem exatamente a mesma coisa. Garmin, Map my ride, Endomondo são só alguns deles. O divisor de águas, no entanto, está num atributo do Strava que nenhum app ou gadget tem: os segmentos.

Os segmentos do Strava

segmentos-strava O Strava não "Straga". O que estraga é seu comportamento competitivo

Se você não está familiarizado com essa funcionalidade do aplicativo, ela basicamente é o seguinte: após alguém passar por um trecho de uma trilha ou estrada, a pessoa pode demarcar alí um segmento. Depois dá um nome para ele e pronto. A partir disso se você passar por lá terá seu tempo anotado e será formado um histórico da evolução do ciclista naquele segmento:

evolução-segmento-strava O Strava não "Straga". O que estraga é seu comportamento competitivo

E para quem treina isso é  excelente. Você pode ver sua progressão com o passar do tempo, ver se sua condição física melhora ou piora dependendo da condição climática, entre outros.

Os segmentos são também uma maneira formidável de explorar novas trilhas e lugares em uma região com a tela de “Segment explore”:

strava-segment-explore O Strava não "Straga". O que estraga é seu comportamento competitivo

É dessa maneira que eu encontro segmentos para formar as listas que crio do Aventrilha, como as 5 subidas mais difíceis de Brasil, de Minas Gerais e de São Paulo (mais estados futuramente). Na verdade essa função do Strava é tão poderosa que no capítulo 1 de meu livro – O Guia do Cicloviajante Independente – dedico uma parte inteira para explicar como usar essa ferramenta em rotas de cicloviagem:

strava O Strava não "Straga". O que estraga é seu comportamento competitivo

No entanto, quando você passa por um segmento, seu resultado entrará para um ranking, ordenando os ciclistas que passaram por alí por tempo.

strava O Strava não "Straga". O que estraga é seu comportamento competitivo

E isso rachou opiniões. Enquanto muita gente gosta desse atributo, outros o detestam, dizendo que o Strava “straga” o pedal por tornar as pessoas mais competitivas. Houve até um vídeo sobre o comportamento dos “Stravassholes” (não sei como traduzir isso):

Aparentemente por causa do Strava nós não paramos mais para conversar, não interagimos, não observamos a trilha, entre outros. Mas, peraí…

O ser humano já não era competitivo antes do Strava?

Será que não passa pelas nossas cabeças que nós sempre fomos competitivos? E que na verdade os desenvolvedores do Strava terem implementado essa funcionalidade no aplicativo é simplesmente uma resposta a essa característica do ser humano – e de grande parte dos ciclistas e mountain bikers?

old-bike-race-image O Strava não "Straga". O que estraga é seu comportamento competitivo

Que atire a primeira pedra quem nunca apostou “rachinha” com o colega de pedal pra ver quem chegava primeiro no topo de um morro. E não tem nada de errado nisso. É algo sadio, de pessoas saudáveis que têm liberdade e amizade pra fazer esse tipo de brincadeira um com o outro (mesmo que as vezes finjamos que não estamos vendo quem chega primeiro).

A questão é que já fazíamos isso bem antes desses aplicativos terem surgido. O que o Strava fez foi simplesmente tomar nota desses rachas e colocá-los em uma tabela. Tabela essa onde o/a líder é um KOM no caso de homens e QOM no caso de mulheres…

Aliás, o que significa KOM/QOM?

KOM = King of The Mountain – Rei da montanha.

QOM = Queen of The Mountain – Rainha da montanha.

Esse acrônimo é usado em muitas provas de ciclismo profissional. A famosa camisa branca com bolinhas vermelhas do Tour de France também é chamada de Camisa de Rei da Montanha.

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Ou seja, se você é o novo líder de um segmento, você não pegou o KOM ou QOM, mas sim se tornou o KOM ou a QOM. E o que isso tem a ver com o tema? Que agora muita gente vai lá e cria segmentos de 100m no plano só pra virar KOM…

Gente, é Rei “da MONTANHA”!! Não Rei “do estradão que liga minha rua até a rua de cima”. E aí toda hora eu chego em casa e ví que percorri os segmentos “Da dona do pastel até a cerca branca”, ou “Retão suave” ou “Do trevo até o coqueiro.

E aí começamos a chegar na questão central desse post. Mas antes, se estiver gostando desse post, curta a página do Aventrilha no Facebook:

 

O problema é o absurdo espírito competitivo, não o Strava

Quando eu resolvo explorar uma trilha ou estrada meio escondida, chego em casa e noto que ninguém tinha passado por lá antes eu imediatamente crio um segmento para esse local. Na minha opinião esse é o lado dos segmentos do Strava onde mais  temos a ganhar: compartilhar com outros ciclistas trajetos novas, trilhas escondidas e estradas isoladas.

Porém, ao contrário disso, o que vemos é uma bajulação enorme de mountain bikers amadores que desejam seus 5 minutos de fama. E isso dá margem pra um monte de absurdo, sendo o pior de todos, em minha opinião, ver gente passando de carro ou moto em um local para se tornar KOM:

segmento-strava-carro-e-moto O Strava não "Straga". O que estraga é seu comportamento competitivo

Ok, não sejamos advogados do diabo: o cara pode ter passado lá de carro e deixou o celular ligado por engano. Mas dado que esse print foi feito hoje (21/10/2016) e esse tempo foi feito há mais de um mês, e os outros 8 primeiros fizeram tempos com menos de 30 segundos de diferença e o cara mete 2 minutos, a coisa ficou meio estranha.

Isso me faz acreditar fortemente no seguinte:

Se você usa o Strava desse jeito, você talvez seja um otário

Se o propósito de seu pedal é tentar marcar um tempo numa tabela que quase ninguém vê para alimentar seu ego, então é você que está “stragando” o Strava. O Strava é um aplicativo excelente, com características que quase nenhum outro app possui. Usá-lo dessa maneira é jogar uma pá de cal nesses benefícios.

strava-facepalm O Strava não "Straga". O que estraga é seu comportamento competitivo

O legal é usar os segmentos e os outros atributos do Strava de um jeito menos obcecado. Usá-los para ver quantos quilômetros eu pedalei no mês e quanto a mais isso representa em relação ao mês anterior. Ver qual foi a subida mais longa que já enfrentei. O dia com mais altimetria acumulada…

Eu particularmente acho tudo isso muito divertido. E esse deve ser o grande foco: diversão! Digo isso porque tenho plena certeza de que 99% de nós aqui não é atletas profissionais. E por fim, pergunto: a ideia de sair para pedalar e deixar o celular/gps em casa te causa pânico? Então tenho algumas sugestões pra você

  • Vá no Google e digite “competições de Mountain Bike”. Você vai encontrar dezenas de lugares melhor que o Strava pra competir com os outros.
  • Experimente outros apps excelentes como o Endomondo, o Map My Ride e Wikiloc.
  • Se inscreva na newsletter do Aventrilha pra receber artigos exclusivos de Mountain Bike por email.

PS: Editado 14/02/17

Uma leitora do blog enviou um print verdadeiramente “facepalm” de segmentos da região onde ela mora. Achei bizarro e resolvi incluir aqui abaixo. Veja:

unnamed O Strava não "Straga". O que estraga é seu comportamento competitivo

  • Fernando

    Fernando,

    Acompanho seu blog há pouco tempo, e acho muito interessante seus artigos.
    Uma outra sugestão para descobrir novas trilhas e caminhos é o Wikiloc.

    Grande abraço.

    • Valeu, xará!

      Verdade, há ainda o Wikiloc como forma de exploração. Tem razão.

      Abraços!

  • Rui Queirós

    Os segmentos tem uma outra opção bastante interessante que é deixar eles em privado.

    Muito bom para ver o nosso comportamento/evolução, ou para marcar objectivos pessoais

    • Verdade, Rui.

      Deixá-lo em privado, ao passo que não poderia ser usado como forma de exploração por outros cilcistas, também acabaria com o fator da massagem de ego causada por ser KOM hahah.

      Abraços!

  • car

    Amigo sou usuário do strava.
    Se você desconfiar e tiver certeza, você pode sinalizar a rotar daquele individuo, vc terá 3 opções, gps falho, essa rota não foi de bike e bug. Como se você denunciasse que o cilicsta não fez de bike, até porque o strava computa outros dados como batimentos cardíacos entre outras coisas,

    • Olá, car

      Há sim, esse método. E se ele existe é porque até mesmo o Strava sabe que há outros ciclistas tentando se passar por algo que eles não são… é de matar né? hahaha
      Abraços!

  • Magna Rizzo Caíres Ataide

    Nossa…gostei demais desse artigo. Vc falou absolutamente tudo que acontece realmente.
    Principalmente quando se tratou da competição saudável. Vc foi no ponto!!! Ela é saudável quando se tem realmente uma AMIZADE.
    Parabéns, ótimo artigo.

    • Obrigado, Magna!!

      De fato, quando se tem uma amizade de verdade tudo fica mais saudável! rsrs

      Abraços

  • fabricio braz

    O strava é o melhor app para mim , vinculado com o garmin então é perfeito , ajuda muito os treinos , faz o atleta buscar o melhor desempenho , tanto em um treino ou um passeio.

  • Alex Assunção

    Strava é Top! Melhor do segmento literalmente!
    Utilizo muito ele, e realmente mostra perfeitamente a evolução de cada pedal, de cada treino. Vivo estudando o Strava e suas funcionalidades e tem sempre algo novo, muitas informações legais, isso que uso somente a versão gratuita.
    Fernando uma das coisas que o Strava tem que tentar diferenciar é quem utiliza MTB ou Speed, existe até o cadastro lá mas os tempos em cada segmento utilizando os tipos de bike mudam muito. Em um segmento de asfalto com certeza os melhores tempos (koms) serão das Speed. Agora que tem gente sempre querendo passar a perna, até no Strava existe. O Verdadeiro segmento motorizado.
    Grande Abraço Fernando.
    Alex Assunção
    Floripa

  • Daniel

    Só num concordo com a crítica de segmentos nos planos, é interessante ter segmentos ao longo de toda trilha, serve como parciais para sua análise. As trilhas que faço durante a semana, são bem básicas, estão 100% segmentadas. Além de todos os segmentos públicos, crio ainda outros privados. Costumo dizer que tenho toda a telemetria do pedal! É fantástico. Quanto ao vídeo, já dei muita risada dele. No que tange a app, o wikiloc é fantástico para desbravar novos caminhos! Quanto ao strava, costumo dizer que é meu personal treiner e acredito que é um excelente incentivador do esporte.

  • Raimundo Araujo

    Excelente matéria, meu caro.
    O Strava é uma ferramenta de primeira qualidade. Pena que uma ínfima quantidade de ciclistas desqualificados, em relação ao todo,faça mal uso desse App,o que caracteriza uma tremenda desonestidade.
    É uma pena.

    • Verdade, Raimundo,
      Ainda sim, pelo menos aqui onde moro, a maioria dos segmentos o pessoal só passa de bike mesmo hahaha.
      Abraços!

  • Silvio Magalhães

    “Possuir KOM/QOM no STRAVA é igual ser milionário no Banco Imobiliário, não vale nada!”

  • Rodrigo Machado Ribeiro

    O mais interessante são os recordes pessoais nos quais você confere a evolução do seu desempenho e possibilita perceber quais estratégias são mais eficientes para o seu progresso.

  • Douglas

    O Garmin ja marcava segmento muito antes do strava, e o endomundo tb marca, o Strava so popularizou e fez muito marketing p vender camisas, seu plano anual… Pesquisar ai pra vc ver

    • Olá, Douglas.
      Que coisa, Rapaz. Nunca cheguei a ver essa parte de segmentos do Endomondo. Confere?

      • VR5

        Uso o Endomondo (não endomUndo) e nunca ouvi falar mesmo…

  • Daniel Amorim

    Buscar as melhores posições de forma competitiva no Strava não é um problema. Para quem treina é uma motivação pessoal que faz com que o atleta se desenvolva. Há pessoas que buscam no moutainbike apenas o lazer, mas há aqulees que usam o aplicativo realmente para treinar e melhorar seu tempo ao ponto de conseguir alcançar o tempo de um atleta profissional conhecido. Particularmente, em uma época na qual eu estava pensando em entrar em competições, foi justamente bater o tempo de pilotos conhecidos por ter bons resultados em competições o que me incentivou a fazer inscrições. Sempre treinei sozinho, não apressando os outros. Infelizmente, não tenho mais o tempo para treinar o suficiente para competições devido a cursar mestrado. Mas a referência dos melhores tempos ainda prevalece como um meio de eu não ficar acomodado, de forma a manter meu preparo físico e minha técnica.

    • Tem toda razão, Daniel.
      Usado assim é ma ferramente incrível. Contudo, todo cuidado é pouco pra não ficarmos parecidos com a dupla do vídeo acima.
      De todo modo, é uma ferramenta incrível pra, como vc disse, não ficar acomodado.
      Abraços

  • Derci lucas

    Sou usuário do strava, tenho o aplicativo como motivador, mas também gosto de fazer trilhas de moto, porem não tem a opção “moto”, então coloco como outra atividade, tipo esqui….coisa que não vai prejudicar ninguém e ao mesmo tempo vejo o trajeto e outras coisas referente a trilha…

    • Sempre pensei nisso, Derci. Se havia um app disso pra quem faz trilhas de moto. Agora vc respondeu minha pergunta hahaha.
      Abraços!

  • Diego Palinski

    Aqui em Porto Alegre têm segmentos que foram criados na contramão, em estacionamento de shopping, em áreas restritas… Dá pra acreditar nisso? Tudo por essa “coroa” digital, rsrsrs. Eu luto pelos meus RPs e desafios do Strava (Gran Fondo e distância mensal percorrida). Só vale a pena lutar pelo KOM/QOM em uma competição internacional. Gostei muito do que tú escreveu, parabéns pelo relato!

    • Fernando – Aventrilha

      Nooossa. Criar segmento na contramão é pra matar hahaha. essa eu nunca tinho ouvido falar, Diego.

  • Daniel Machado Dacol

    Babacas tem em todo lugar.

  • VR5

    No artigo o seu link para “O Guia do Cicloviajante Independente” está quebrado!

    • Fernando – Aventrilha

      Valeu pelo toque, VR5!

  • VICTOR HUGO LYRA DE OLIVEIRA

    Você pode traduzir Stravasshole como o cuzão do Strava.

  • Pablo Retamoso Valim

    Usei o strava de maio 2012 até janeiro de 2017. Enchi o saco! Teria que ter uma maneira da pessoa habilitar ou não os segmentos. Tornar opcional.