Os roubos de bicicleta só aumentam no Brasil – tem como resolver isso?

roubada bike

Fevereiro de 2005. Começando o ensino médio. Tinha acabado de mudar de escola e conheci um amigo que acabaria me mostrando pela primeira vez o que era colocar a bicicleta numa trilha. Luca, seu nome.

Foi meu amigo de alguns pedais onde tive o contato com o Downhill pela primeira vez. Me fez ver que a minha bicicleta podia muito mais que ficar passeando em estradões.

Luca, para alguém que andava de BMX, entendia muito de mountain bike. Quando ganhei um pouco de intimidade com ele, resolvi perguntá-lo o motivo dele fazer trilhas com a pequena bicicleta:

“É que roubaram a minha Trek”.

Roubaram a sua Trek… roubaram a sua Trek… aquela mensagem me chocou. Fiquei dias pensando na Trek roubada de Luca. Foi de fato a primeira vez que ouvi alguém próximo a mim dizer que teve uma bicicleta roubada enquanto pedalava na rua.

E por mais que eu tentasse evitar esse pensamento, o que eu acabava evitando mesmo era pedalar pela rua onde Luca havia sido roubado.

Na época, a sensação era apenas de revolta, de frustração. Hoje, 12 anos depois, vejo aquele incidente com outros olhos.

Por que roubaram a Trek do Luca?

Para Luca chegar em nosso colégio, ele tinha que passar em frente a um local que nós todos sabíamos que devia ser evitado. Outros furtos haviam ocorrido alí, mas nada tão significativo – e assustador – quanto uma Trek que, para o ano de 2005, era A bike.

Por que, então, roubaram a bike dele?

Bem, pelos mesmos motivos que se roubaria qualquer outra coisa:

  1. Para que alguém que não iria nunca poder comprar uma bicicleta pudesse ter uma bicicleta;
  2. Para vender a Trek para outra pessoa e ganhar dinheiro com isso.

O número 1 é um motivo que só faz sentido para coisas pequenas e simbólicas. Ninguém vai, por exemplo, roubar uma casa e passar a morar dentro dela.

A bike de Luca, no entanto, não era tão significativa quanto um carro e, dado que em 2005 quase ninguém sabia o que era Mountain Bike no Brasil, muito menos o que era uma Trek, acredito que o motivo de terem roubado a Bike de Luca seja a razão número 1 – para que alguém que nunca poderia comprar uma bicicleta pudesse ter uma bicicleta.

No entanto. Os tempos são outros.

“Olha só, é tudo Specialized!”

Ouvi a frase acima de dois rapazes sentados numa calçada quando passava com meus amigos para ir pedalar. Algumas semanas depois fiquei sabendo que um colega tinha tido sua bicicleta roubada no mesmo lugar.

É provável que seja somente paranóia minha. Que não foram esses garotos que assaltaram esse colega.

Porém, algo alí me alertou. Eu não estava de Specialized, eu estava de Fuji. Na verdade, Specialized mesmo só um de nós. E essa frase “é tudo Specialized” ficou gravada em mim.

Alguém, que aparentemente não sabia reconhecer uma Fuji, identificou algumas mountain bikes de qualidade como “é tudo Specialized”. E se tudo não tivesse sido paranóia e realmente hovesse alí alguma má intenção, só me resta fazer a seguinte afirmação:

Só haverá vendedor se houver comprador

Grupos de Facebook e OLX são inundados de anúncios de bicicletas e peças. Quadros, freios, transmissões, canotes, rodas e tudo mais. Algumas coisas novas, outras usadas.

Nada de errado nisso, não é?

Grande parte dos produtos desses grupos e de OLX é vendido como usado e sem nota fiscal. E talvez a pessoa que esteja vendendo o item realmente não esteja de má fé, mas sem posse da nota fiscal nunca se saberá a procedência do item.

“Mas, Fernando, como diminuir os roubos de bicicleta no Brasil?”

Pare de comprar bikes e peças sem nota fiscal!!!!

Não estou falando do moralismo político ou de termos de ser pagadores de impostos fiéis. Acho isso uma grande idiotice.

O que estou dizendo é que você, ao evitar comprar produtos sem nota, está automaticamente dizendo um “não!” a assaltantes e suas bikes roubadas.

“Mas, Fernando, as bikes no Brasil são muito caras! Comprar usado é a única saída e as vezes o vendedor não passa a nota!” então está na hora de você começar a se desacomodar da poltrona:

Lute por impostos mais baixos

Impostos mais baixo = produtos mais baratos. Se o lucro na venda de uma bike usada é metade do que costumava ser, os furtos declinarão. Muito simples! Além do mais, todos saímos ganhando pois não precisaremos pagar mais ridículos R$3000 por bicicletas novas da Caloi com transmissão Altus.

Então eu te suplico: apenas hoje, por favor, pare de enviar foto de mulher pelada ou de mensagem com foto da esposa do Lula no seu grupo de ciclismo do Whatsapp e comece falar de coisa séria:

Engaje-se, assine petições, cobre o deputado em que votou a respeito de leis que incentivem a diminuição da carga tributária sobre a venda de produtos do mercado da bike, combine com amigos de escrever emails ou cartas para as gananciosas fabricantes de ciclismo ajudarem nessa luta pela redução dos impostos.

No mais, compre do Aliexpress ou do Paraguai e monte um boicote enquanto essa situação não mudar!

Entenda uma coisa: fabricante de bicicleta não faz caridade, então não sinta pena. Lute pelo seu direito de viver em uma sociedade onde haja menos furtos e preços menos abusivos.

O problema vai acabar depois disso?

Você pode dizer “é só andar armado que vai resolver o problema”.

Não, não vai. Sinto informar-lhe que viveremos ainda nessa salada tenebrosa que chamamos de sociedade por muitos anos ainda por razões que não pretendo discutir nesse blog. Você ter uma arma só vai resultar em mais bandidos saindo armados para roubar bikes e ferrando o coletivo como um todo.

Porém, se há algo que podemos fazer para melhorar nossa comunidade, que façamos. O mercado paralelo só existe porque há consumidores para o mercado paralelo. E há consumidores no mercado paralelo por conta de preços abusivos no mercado “normal”.

Esse problema acontece em todo o mundo. Não é de hoje que vemos notícias de equipes européias que tiveram todas as suas bicicletas furtadas de dentro do caminhão do time – o que mostra a força do mercado negro e o quanto precisamos parar de comprar coisas sem nota.

Lembra da Trek de meu amigo Luca? Pois bem: e se você aí que está me lendo agora é o atual dono dela? Está pedalando com a bicicleta inocentemente, sem maldades, desavisado de que ela pertence a alguém?

Pense nisso.

Continue investigando o assunto e leia o artigo carbono, 27.5+, relação 1×12: a loucura do marketing do Mountain Bike. E curta Aventrilha: