Mulheres formam a pequena minoria de quem pedala. Por quê?

Por que há tão poucas mulheres que pedalam?

Hoje é um dia especial. Se tudo acontecer como vem sendo nas últimas semanas o Aventrilha atingirá 10 mil curtidas no Facebook e 2 mil inscritos na newsletter. São milhares de leitores de todos os estados do Brasil, Portugal e outros cantos do mundo que lêem o que escrevo sobre Mountain Bike e Cicloviagem aqui.

Nem preciso dizer o quanto isso me deixa contente e agradecido. Porém no meio dessa alegria e gratidão me veio também uma surpresa. Ontem, quando fui dar uma olhada nas estatísticas da página do Face do Aventrilha, me deparei com os seguintes dados:

Face-aventrilha-mulheres-in-text Mulheres formam a pequena minoria de quem pedala. Por quê?
Só 16% de curtidas das mulheres :O

Isso mesmo! Só 16% de todas as curtidas na página do Face do Aventrilha são de mulheres. Se por um lado isso me deixou um tanto quanto assustado, por outro também me fez refletir que é assim mesmo que acontece nos grupos de ciclismo que participo: nos pedais, no máximo um em cada 10 ciclistas são mulheres. Vendo por esse lado até que meu site está se saindo bem nesse quesito.

Entretanto, não podia confiar apenas nos números de garotas presentes nos pedais locais para tentar entender o porquê de ter tamanha discrepância no número de curtidas femininas vs. curtidas masculinas no Aventrilha. Então resolvi me perguntar o seguinte:

Será que é só no Aventrilha?

Comecei o blog no dia 29 de maio deste ano. Há (quase) exatos 6 meses. E se blog já é algo bem menos comum no Brasil que lá fora, blog que fala de ciclismo é quase uma espécie alienígena. Sendo assim, conheço muitos dos outros poucos blogueiros companheiros de profissão. E não é coincidência que todos eles também são homens. Olhe só alguns blogs e seus respectivos autores:

  • Até onde deu pra ir de bicicleta -> André Schetino
  • Biketribe -> Guilherme Guedes
  • Pra quem pedala -> Henrique Andrade
  • Revista Ride Bike -> Rafael Oliveira

E estes são só alguns exemplos. E se quase todos os outros blogs voltados para ciclismo e cicloturismo são comandados por homens, acredito que meus companheiros também tenham uma audiência muito parecida.

Outro ponto que mostra o quanto esses 16% de audiência femiina não são uma anomalidade é isso aqui:

camisas-para-ciclismo-mulher Mulheres formam a pequena minoria de quem pedala. Por quê?

Essa imagem é de um print dos primeiros resultados quando digito “Camisas para ciclismo” no Mercado Livre. Os cinquenta primeiros resultados são de camisas mascullinas. Nenhum dos cortes são para mulheres. E eu poderia continuar procurando que encontraria mais e mais exemplos para mostrar que de fato não é algo do Aventrilha.

Vendo que estava cercado de indícios de que esses 16% de mulheres não era um problema só do meu blog – muito mais amigos ciclistas homens que mulheres, maior oferta de produtos para homens e muito mais blogueiros homens – resolvi me perguntar uma outra questão:

Será que é só no Brasil?

Muitos argumentariam “pedalar sozinha pode ser perigoso” como justificativa para o fato de existirem poucas mulheres ciclistas. Já comentei no post “Por que viajamos tão pouco de bicicleta no Brasil?” que isso não faz muito sentido. Mas e se pegássemos um pais notadamente seguro e com ciclismo extremamente desenvolvido como a França, será que haveriam muito mais mulheres pedalando que aqui?

E para responder a essa questão recorri ao Strava.

E resolvi escolher a França, país onde o ciclismo profissional praticamente nasceu. Acessei um dos segmentos mais famosos e movimentados do mundo: O Mount Ventoux – a subida de 20km que figura frequentemente no Tour de France. No Strava ela já foi percorrida por mais de 38 mil ciclistas, como destacado na imagem.

strava-mulheres-mont-ventoux Mulheres formam a pequena minoria de quem pedala. Por quê?

 

A pergunta agora era “quantos destes 38898 ciclistas são mulheres?” e a resposta me surpreendeu ainda mais:

strava-quantas-mulheres-frança Mulheres formam a pequena minoria de quem pedala. Por quê?

2802 mulheres. Isso corresponde a apenas 7,2% de todos os ciclistas que percorreram este segmento. SETE VÍRGULA DOIS!!! Automaticamente cai por terra vários argumentos de que mulheres não pedalam no Brasil por conta da segurança ou porque o ciclismo não é desenvolvido aqui. Balela. A coisa é assim no mundo todo.

“Mas, Fernando, você está vendo o ciclismo do ponto de vista esportivo! É claro que se você analisasse um país que utiliza a bike como meio de transporte isso seria diferente!”

Muito bem, cara pálida. Recorri então a Amesterdã, capital da Holanda, reconhecida mundialmente pela qualidade da estrutura disponível para ciclistas.

amsterdã-ciclista-mulher Mulheres formam a pequena minoria de quem pedala. Por quê?

148 mil percorridas por 27 mil pessoas. Movimentado, não é? Mesmo assim são apenas 2757 mulheres que percorreram o segmento. Não chega nem perto dos 16% do Aventrilha.

mulheres-porcentagem-amsterdã-ciclistas Mulheres formam a pequena minoria de quem pedala. Por quê?

Muito bem. Sabia que o problema não estava com meu blog e que também não tinha nada a ver com o Brasil. O que mais poderia ser? Tinha ainda uma última pergunta a fazer:

Será que é só no ciclismo?

Poderia ser, não é? Talvez isso seja coisa do mountain bike, ciclismo de estrada e cicloturismo. Afinal, é sabido que mesmo na Europa as competições femininas de bikes não recebem nem 10% de atenção e olhares da mídia que as provas masculinas.

Temos ainda um número vasto de esportes onde grande parte dos holofotes estão ligados nas competições masculinas: futebol, rugby, golfe, automobilismo… a lista é enorme.

Na verdade aqui eu já responderia meu questionamento. O problema não é do Aventrilha, não é do Brasil e muito menos do ciclismo. O grande problema é que há pouquíssimo interesse em elevar o nível das competições femininas de todos os esportes por todo o mundo. E isso é sério.

Para terminar, eu tinha minha última questão.

Como trazer mais mulheres para o ciclismo?

Nascemos e crescemos vendo na televisão nossos ídolos do esporte. Eles eram: Ayrton Senna, Popó, Guga, Ronaldo… todos homens! Não só isso mostra como o mundo esportivo vai mal para o lado das garotas como evidencia que faltam mais ídolas para trazer as garotas para o esporte. E por esporte eu quero dizer ciclismo.

E no meio disso tudo, tem uma modalidade que conseguiu quebrar quase por completo esta barreira e esbanja enorme sucesso nas competições femininas: o tênis.

mequetrefismos-serena-williams Mulheres formam a pequena minoria de quem pedala. Por quê?

Serena Williams é o marco de uma era que mostra quão consolidado o tênis feminino está no cenário esportivo mundial. Patrocínios milionários, legião de fãs por onde vai. Serena e suas contemporâneas Maria Sharapova, Simona Halep e cia são produtos de uma sacada magnífica. Isso aconteceu em 1967  e eu cortei um trecho do excelente documento “History of Tenis” que explica essa sacada:

[pullquote align=”normal”]Não havia nenhuma mulher praticando tênis profissional até 1967, quando o promotor Goerge McCall contratou ann Jones, Rosie Casals e outras mulheres por dois anos para entrar nas disputas femininas de campeonatos que até então era só de homens.[/pullquote]

E isso faz sentido! Veja só nas Olimpíadas. Eu adoro as Olimpíadas. E honestamente fiquei tão animado para ver a prova de BMX masculino quanto feminino. Veja: ninguém fala que Maurren Maggi levou o ouro feminino. Nós falamos que ela é campeã olímpica. Ou que Serena é campeã feminina de têis. Falamos que ela venceu no US Open.

Quando homens e mulheres competem no mesmo evento, há isonomia. Igualdade. Veja por exemplo o sucesso avassalador do La Course de 2016:

CLA_IMG Mulheres formam a pequena minoria de quem pedala. Por quê?

No último dia do Tour de France é tradição os ciclistas chegarem em Paris praticamente desfilando. O campeão já está decidido e só resta a vitória por etapa ou da camisa por pontos. Aproveitando esse clima, em 2016 foi introduzido o La Course, uma prova feminina onde as competidoras também percorrem a Champs-Élysées já lotada para assistir o evento masculino. Resultado: sucesso total.

“Será que isso realmente resolve o problema?”

Honestamente, acho que não. Acho que precisa muito mais que apenas homens e mulheres compartilharem o mesmo evento para que mais mulheres passem a pedalar (até porque hoje a grande maioria das provas de ciclismo amador no Brasil e no mundo têm categorias femininas).

Porém isso é um início. E funcionou com outras modalidades como tênis e natação. Até que haja mais igualdade e mais mulheres passem a pedalar eu ainda me sentirei um pouco incomodado com apenas 16% de curtidas provenientes do público feminino – ainda que extremamente feliz por chegar a marca de 10 mil likes em menos de 6 meses de trabalho!

E se você ainda não segue, não perca tempo, deixe seu like 🙂

 

  • Thereza

    Iniciei no ciclismo de estrada em 1995, até então me achava uma ET, amadora e ia para as competições com meu namorado e chegava lá… só tinha eu!!!! Aff. Quer saber? Mulher gosta mesmo é de um sofá!! Kkkk, quando falo que pedalei e fiz trilha de 100km que fiz uma elevação de 2.000m, o quê??? as amigas faz aquela cara de espanto de boca aberta, eu hein?!!!

    • Fernando – Aventrilha

      Haha, quem sabe…

  • Francis Casagranda Zanella

    Olá Fernando! Nunca comentei por aqui, mas tenho gostado muito do seu blog! Então cara, ótimo vc ter levantado o assunto. Acredito que no fundo, no fundo mesmo, essa “ausência” das mulheres é própria da expectativa social de que as mulheres sejam muito mais “recatadas” do que “viris”… e aí vem toda questão dos baixos patrocínios e incentivos que vc disse. Vale mencionar a mídia esportiva que se dedica a noticiar as esportistas “mais sexy” e seus casos amorosos ao invés de seu treino e desempenho. Há grandes estudos sobre o assunto, vale a pena conferir a reportagem de um deles, feito nas olimpíadas. Um abraço!
    http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Como-a-imprensa-esportiva-trata-as-mulheres-nos-Jogos-do-Rio-2016/6/36580

    • Fernando – Aventrilha

      Exato, Francis.
      De certo modo não respondo à pergunta “por que mulheres não pedalam” no texto, mas fato é que as espectativas sociais definitivamente têm um peso gigantesco nesse fenômeno.
      Para mim o pináculo é no futebol americano. Já viu como as mulheres praticam? Talvez minha visão sobre isso seja um pouco patriarcal, mas não vejo motivo para homens jogarem de calça e camiseta e mulheres de biquini…
      Obrigado pelo excelente texto que me enviou!

  • Cristiane Campanholo

    Aqui na nossa cidade temos dois grandes grupos de ciclismo em que as mulheres são as protagoistas: Pedala Guria, que é um grupo feminino, onde os únicos homens que podem participar são namorados ou maridos das mulheres que participam e Ventos do Sul, um grupo misto onde ninguém fica para trás. As mulheres só vão pedalar se estiverem seguras, principalmente se forem para o asfalto ou para a estrada de chão. Os maridos e namorados vão perguntar: “Vai sozinha? Mas é perigoso… “. Pois é, isto coibe a participação feminina. Grupos e apoio sempre farão as mulheres pedalarem, principalmente se estiverem de igual, no meio de outras mulheres.

  • RRN

    Acredito que o baixo número de mulheres praticantes de ciclismo envolvam dois principais motivos: afinidade com o esporte e natureza humana.
    Nada de ser machista ou achar que mulheres são molengas e não gostam de suar a camisa, pelo contrário, quando a mulherada abraça a causa sai de baixo!
    Assim como alguns esportes temos muito mais mulheres do que homens e o ciclismo está para esse perfil do outro lado da moeda. Até entendo que uma mulher não gosta muito de ter as canelas raladas ou roxas de levar porrada de pedal pois não combina nada com uma saia curta (se bem que muitas exibem com orgulho as raladas!) mas penso que outros esportes seja mais atrativos pelo perfil de atividade para as mulheres como uma malhação na academia, vôlei, corrida, etc.
    Elas podem não estar em peso no pedal mas estão por aí a todo vapor! E as que estiverem a fim sejam bem vindas!

  • Mônica

    Oi Fernando! Leio e te acompanho a pouco tempo, e tenho orgulho de dizer que faço parte desses 16% que vc fala aí rsrsrs. Até o meio do ano passado eu só corria e de repente fui tentar o pedal, peguei uma bike emprestada do meu irmão (uma Mtb gigante pro meu tamanho) e fui acompanhar um pelotão de passeio (em Brasília tem muitos grupos de pedal, para todos os tipos de gosto). Fui na cara e coragem, morrendo de medo de cair, de ser atropelada pelos carros, enfim…fui, e….me apaixonei! Um mês depois comprei minha bike, desde então é só felicidade, já passei por outros pelotões mais fortes, estou evoluindo e melhorando a cada dia, só posso dizer uma coisa…amo pedalar, a sensação de liberdade é incrível, o vento na cara é maravilhoso…nunca competi e não sei se irei, até agora só consegui ir pra uma trilha, rodo muito no asfalto e durante à noite pela cidade, mas sempre em turma, teve noite que já rodamos mais de 100km…No carnaval parto pra fazer o Circuito do Vale Europeu em Santa Catarina, esse ano será o ano das cicloviagens, o pedal também me ajudou com a corrida e vice-versa, enfim, só felicidade mesmo. Desculpe o longo texto, acabei me empolgando e nem consegui responder a pergunta principal: o Por quê das mulheres serem minorias no pedal…Infelizmente não sei, o que posso dizer é que elas não sabem o que estão perdendo 🙂

    • Fernando – Aventrilha

      Olá, Mônica!

      Que bacana ler esse comentário. Consegui imaginar como se sentiu ao experenciar aquele primeiro pedal. Teve muita coragem, não só pelos “perigos” da modalidade mas pela parte de condicionamento físico também.
      Desejo que sua ida ao Vale seja épica! Que corra tudo bem e você se apaixone ainda mais pela modalidade.
      Que esses 16% se torne 61%!! 😀

  • Nathachi

    Parabéns pelo texto!!! Na minha opinião é uma coisa de cultura mesmo, embora tenha várias amigas que pedalam e esse número vai crescendo pq incentivamos nossas amigas, pedalar, escalar, fazer trilhas, porém, se a pessoa tem a mente muito padrão… e infelizmente o padrão não é aventureiro, aí ela acha legal, admira, mas não faz, tem preguiça, acha que passou da idade de pedalar eu já ouvi, tem medo de se machucar eu já ouvi, prefere usar o carro ou bilhete único ao invés de pegar a bike e ir… enfim, espero que a cultura mude com o tempo exponencialmente.

  • Elizete Caliman

    Aqui na cidade onde moro tem um grupo de ciclistas “homens”, eles tem até um grupo de whatssap. Eu pedalo há 8 meses aqui e por mais que eles saibam e me conheçam, pedalo sozinha ou com meu esposo, e também não me incluem nos grupos das redes sociais. E olhando culturalmente o que vejo é o machismo do clube do Bolinha e a “implicância” dos pares femininos (esposas). Eu recebo muitas investidas negativas do gênero feminino quanto a minha “loucura” de pedalar: “para que isso? Você já é magra!” Como se fosse para isso. Elas não se cuidam e odeiam as que fazem qualquer coisa que alcance um benefício estético. E registre-se: pedalo porque sou louca por um pedal, uma bike me traz paz, amo mais que chocolate.
    Como prezo por minha paz, nem tento entrar ou pedalar com o clube do Bolinha. Às vezes faço, sozinha, o mesmo trajeto que o grupo, mas em horários diferentes, infelizmente. A cultura nos trás muitas respostas.