O que é Cyclocross (e porque uma bike dessas talvez seja ideal para você)

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Imagem: http://velonews.competitor.com/

O que é Cyclocross  – Olha só! Essa é uma das poucas vezes que o blog Aventrilha está se aventurando fora dos temas de Mountain Bike e Cicloviagem. E isso se dará por uma nobre missão: hoje falaremos do Cyclocross, modalidade de ciclismo com parentesco bem próximo ao MTB e ciclismo de estrada.

Talvez você esteja se perguntando “Mas como pode uma modalidade ser próxima do MTB e ciclismo de estrada ao mesmo tempo?” e essa não é uma pergunta sem fundamento. Se você nunca ouviu falar em Cyclocross antes desse post, talvez tenha a sensação de que é algo de doido varrido. Afinal, quem colocaria uma bike de estrada na terra, certo? Mas uma bicicleta dessa modalidade pode lhe ser muito mais útil do que você possa imaginar.

Falarei aqui do cyclocross por 3 pontos de vista:

  1. O que é a modalidade esportiva cyclocross;
  2. O que é uma bicicleta de cyclocross;
  3. Porque talvez essa bike seja uma excelente opção para você.

Começando pelo começo:

1- “O que é Cyclocross?”

Sendo tão simples quanto possível: cyclocross é uma submodalidade do ciclismo. As provas dessa modalidade geralmente ocorrem no inverno e outono do hemisfério norte (outubro a fevereiro) e consistem em várias voltas por um circuito de 2km a 5km. O circuito normalmente possui terreno de dificil transposição, com areia, galhos, grama e lama. Muita lama:

2013-11-10-52614 O que é Cyclocross (e porque uma bike dessas talvez seja ideal para você)

Também há uma série de obstáculos artificais não vistos no mountain bike XCO, como barreiras e escadarias.

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Por se tratar de uma prova com trajeto de nível técnico bem elevado, os atletas, quando competindo no cyclocross passam boa parte do tempo empurrando as bikes ou carregando-as nos ombros.

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Os países onde ele é mais popular são França, Holanda,  Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Suiça. Porém é na Bélgica que ele tem uma legião de fãs e atletas de maior destaque. Não é raro ver nos campeonatos mundiais de cyclocross um pódio com três atletas belgas.

O grande ídolo do esporte é o belga Sven Nys, hoje (2016) com 40 anos. Entre as mulheres temos Sanne Cante como a atual hepta campeã Belga (quase um mundial).

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Sven Nys

Outros grandes nomes do esporte, como Lars Boom e Zdenek Stybar, começaram suas carreiras no cyclocross e depois migraram para o ciclismo de estrada.

Por se tratar de um estilo bastante técnico, especialistas em cyclocross normalmente são cotados como favoritos para provas na estrada onde não é preciso só perna, mas muito braço também – não é a toa que Boom ganhou uma etapa do Tour de France com paralelepípedos em 2014, enquanto Stybar venceu a Strade Bianche de 2015.

Em algumas provas amadoras, é permitido a participação de mountain bikes. Ao contrário do que pode parecer, isso não trás muita vantagem ao participante. As provas de cyclocross são geralmente bem rápidas e menos técnicas que do XCO.

E se hoje os atletas do cyclocross competem quase que exclusivamente nessa modalidade, no passado a coisa era um tanto diferente:

“Como surgiu essa modalidade maluca?”

Como mencionei acima, a temporada do cyclocross tem seu pico de outubro a fevereiro. Isso não é a toa: é nessa mesma época que o ciclismo de estrada está de férias para o gélido inverno europeu.

Alguns atletas, nessa época, apostavam “rachas” com os amigos de um jeito bem inusitado: ganhava quem chegasse de uma cidade a outra primeiro. Porém ninguém era obrigado a utilizar as estradas convencionais. Os “competidores” pulavam cercas de fazendas, cruzavam plantações, fugiam de cachorros… uma farra.

O que começou como brincadeira se tornanava esporte profissional. Foi como uma possibilidade dos atletas da estrada continuarem em forma no inverno que o cyclocross se consolidou. Para se ter uma ideia, um dos grandes apoiadores da profissionalização do esporte foi Géo Lefèvre, idealizador do Tour de France, que em 1902 ajudou a organizar o primeiro campeonato nacional francês.

Veja que animal o cyclocross sendo praticado antigamente:

“E o que é uma bicicleta de cyclocross?”

De relance, as bicicletas de cyclocross parecem legítimas bikes de estrada. Guidão, quadro, rodas… mas olhe mais de perto e você começa a perceber que há diferênças que justificam haver uma bike especial para a modalidade.

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Ao todo podemos apontar 5 características que a diferencia da bike de estrada:

1- Pneus mais largos e com cravos

Os pneus de cyclocross são muito mais estravagantes que os de estrada. Enquanto no asfalto as bikes rodam com pneus 23c ou 25c, aqui os pneus quase nunca tem largura inferior à 30mm. Eles também rodam com pressão mais baixa e possuem pequenos cravos para dar mais aderência à bike.

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2- Maior folga entre o pneu e o quadro/garfo

Nas bikes de estrada, o pneu passa raspando no quadro e no garfo. Há muito menos espaço entre as rodas e o quadro/garfo- o chamado clearance em inglês – para que a bike fique mais aerodinâmica. Já nessa modalidade, onde há provas que os ciclistas chegam tingidos de lama, isso é um problema, não uma solução. Aqui, ao contrário das “speeds”, ter mais espaço entre o pneu e a bike é um ponto crucial para que a lama não fique acumulada.

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3- Freios a disco ou cantilever

Hoje em dia muitas bikes de estrada de ponta estão vindo com freios a disco. No cyclocross, no entanto, essa peça já tinha sido introduzida bem antes. Tudo porque com uma bike enlamaçada e molhada é uma excelente ideia ter um freio desses.

Ainda sim, grande parte das bikes vêm com o freio cantilever. Sim, aqueles que você tinha na sua primeira Monark de 18 marchas:

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4- Transmissão mais leve

Isso não é regra. Até porque você pode muito bem trocar a transmissão quando quiser. Mas, vindo da fábrica, as bikes de cyclocross normalmente possuem transmissões com relação bem mais leve que as bikes de estrada. Muitas vindo até mesmo com o sistema de uma única coroa, como essa Kona e a outra Jamis acima.

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5- Geometria mais “relax”

Em geral, a geometria dessas bicicletas são menos agressivas que a das speeds.

  • A distância dos eixos é maior, dando mais estabilidade;
  • O chainstay (parte do quadro que conecta o eixo traseiro ao movimento central) é maior;
  • O Top Tube não é tão comprido;
  • O guidão normalmente é posicionado mais pra cima;
  • A mesa (avanço) é mais curta;
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Ok, agora estamos chegando ao item 3 que mencionei lá no início do post. Mas antes…

Siga o raciocínio: reparou que as bikes de cyclocross possuem um pouco da geometria da bike de estrada misturado com um monte de características da mountain bike cross country? E que isso deixa ela uma bike fenomenal para quem enfrenta um pouco de tudo: asfalto, estradões de terra de baixo nível técnico e até trilhas? Sim, trilhas:

E assim começou a surgir um nicho no mercado de pessoas que usavam suas cyclocross para fazer cicloviagens, para competir, para passear, para ir para o trabalho e arregaçar na lama como Yoann Barelli no vídeo. E aí vem o pensamento: “Puxa, eu poderia utilizar uma bike assim nos meus pedais. Seria ideal!”

Ah mas é claro que você também pensou nisso. Eu pensei, Papa Francisco e Tony Ramos… e também pensou assim a industria de bikes inteirinha. E ela não poderia deixar passar essa oportunidade em branco. Começou a surgir um nicho no mercado das pessoas que pedalavam bastante pelo asfalto porém também enfrentavam estradões de terra longos e de baixa dificuldade técnica.

Eis que surge a Gravel Handling!

A Gravel Handling

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Percebeu a diferença dela para a cyclocross? Não? Nem eu. Quando fiquei sabendo da existência dela, meses atrás, assisti muitos vídeos e lí varios artigos pra entender esse conceito.

Na teoria, as Gravel Handling (gravel=cascalho) são bikes ainda mais ergonômicas que as cyclocross e que comportam pneus um pouco mais largos -vai até um kenda small block eight 2.0, por exemplo.

Na prática, é outra coisa. Vamos fazer um teste. Abaixo bikes são de cyclocross, 1 de gravel handling e outra de adventure:

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Descobriu qual é qual? Pois é. Essa trek 920 só dá pra saber que é de adventure pq tem dois bagageiros montados e…

…bem, quer saber? Nem vou entrar nesse assunto. Se você segue o blog Aventrilha, sabe bem o que penso disso e onde quero chegar com esse raciocínio. Especialmente como comento no post “O enlouquecedor marketing no mountain bike“.

Se você quiser defender a existência das gravel handlings como sendo muito melhor para enfrentar estradões que a cyclocross, vá em frente. Só lembre que lá em 2004, quando Alessandro de Souza correu o Big Biker com uma cyclocross, ninguém falou “pra isso você precisa de uma gravel handling”…

Enfim, o intuito desse post é outro. E estamos perto de finalizá-lo, respondendo a terceira e última questão:

Talvez uma cyclocross seja uma excelente bike pra você!

Como comentei acima: geometria mais relax que as bikes de estrada e muitas características de mountain bike.

Cyclocross-Touring-Bike O que é Cyclocross (e porque uma bike dessas talvez seja ideal para você)

Essa foto é do respeitadíssimo blog de cycloviagem ciclingabout.com. Nesse artigo, o autor comenta que apesar de haver muitas diferenças entre uma adventurer e uma cyclocross, que ele mesmo a sugere como uma ótima bike para cicloviagens mais leves (ele fala “leve” porque já percorreu uns 50 países pelo mundo de bike).

Então sabe aquele “longão” que você vai dar com a galera de mais de 100km onde metade é no asfalto e metade em estradão? Sabe aquele pedal noturno que você vai passar com seus amigos no meio do canavial? E sabe aquela trilha que você tanto gosta mas que pra chegar tem que pegar 30km de asfalto?

Pois pra tudo isso a cyclocross é uma ótima solução. Veja o exemplo de Alessandro Souza no Big Biker, Yoann Barelli na sua trilha e tantos outros ciclistas mundo afora que usam uma cyclocross com esse propósito.

“Mas não encontro uma dessas pra comprar em lugar nenhum!

Você ainda pode usar o argumento muito pertinente de “eu não encontro uma pra comprar no Brasil”. E você está coberto de razão. Porém com uma modificação aqui e outra alí você consegue converter uma bike de estrada em uma ótima adaptação de cyclocross. Talvez ela não o tornará campeão mundial, mas a magrela estará pronta para invadir os estradões de terra e quem sabe trilhas.

E é isso aí!

Ah, e curta a fanpage do Aventrilha no Facebook:

 

(Obrigado Wellington Roberto e Clayton pela sugestão 🙂 )

  • Henry Ide

    Eu estou tentando montar uma bike assim e acabei encomendando um quadro com um frame builder Igor Miyamura.
    Quando ficar pronto eu estou pensando em colocar câmbio de mb e freio a disco.
    Acho que vai ficar bom

  • Wellington Roberto

    Sinceramente não esperava que vc me respondesse o email em que dei a dica sobre Cyclocross, muito obrigado pelo retorno, a matéria ficou ótima, esperando pela postagem da conversão de uma bike normal para cyclocross.

    Comprei uma CAADX Tiagra a pouco tempo e posso dizer que é muito boa, melhor do que o esperado, tem uma excelente aerodinâmica para uma bike de multi estrada (termo de motociclismo), passa mt bem em cascalho, areia. E por ser uma bike bem rígida e macia ao mesmo tempo, por incrível que pareça, acaba te dando aquela velocidade alem do normal para um terreno irregular.
    É uma bike muito arisca e tem uma mudança de direção muito rápida.
    Eu estava acostumado com uma bike simples sem suspensão aro 26 e mudar pra essa cyclocross também sem suspensão com aro 700 foi muito surpreendente como é uma bike rápida no asfalto e muito melhor na terra, ACHO que não deve ficar muito atrás de uma bike de estrada mesmo, tudo vai depender do ciclista ter perna pra rodar em alta velocidade.
    No estradão, trilha, areia e todos os terrenos que uma MTBK aro 26/29 roda bem, uma cyclocross voa e da rasante. É sensacional e impressionante.

    • Fala, Wellington!

      Agradeço sua sugestão! Foi muito inteligente e interessante. Adorei escrever esse artigo.
      Quanto à bike, sempre que vejo a CAADX tenho vontade de ter uma hahah. Num estradão deve ser uma coisa extremamente veloz, assim como você relatou.

      Obrigado novamente!
      Abraço

  • Carlos Alberto Duarte

    Boa noite amigos.
    Uso minha MTB para pequenas viagens de 1 dia a 1 semana no máximo. Mais asfalto, mas às vezes tem uma trilha, uma estrada de chão…..o maior problema que vejo são os pneus. Minha MTB é aro 26. Fernando tem alguma sugestão de um pneu que pudesse desenvolver bem na terra, com possibilidade de areia e lama e desenvolvesse razoavelmente bem no asfalto?
    Grato.

    • Olá, Carlos. Sim. Dos que usei sugiro os seguintes:

      Maxxis Aspen
      Specialized Renegade
      Schwalbe Black Jack
      Kenda Small Block 8

      Eu usei também o Continental Race King, que é muito popular, porém tive problemas com ele na lateral que se rompeu.

      Abraços!

  • Daniel Moreira

    Resumindo: Uma hibrida com pneus mais grossos?

  • Victor

    Ótima matéria, eu já conhecia o Cyclocross mas tem muita gente por aqui que não conhece. Qual é a bike toda preta da foto? Que sonho de bike hein..