“As Mountain Bikes aro 26″ morreram” – Será mesmo?

“Mountain bikes aro 26″ moreram”. A primeira vez que li isso, em um artigo na BikeMag.com, eu quase surtei. Era 2012 e no Brasil a febre das 29″ ainda não tinha se espalhado.

Em meu círculo de amigos do pedal só havia um único colega que andava de 29″ e todos faziam piadas com sua bike de proporções maiores. “Roduda”, dizíamos.

A partir de 2012, porém, as mountain bikes de aro 29″ passaram a virar celebridades . Entre 2012 e 2015 muita gente que tinha aro 26″ migrou para 29″ ou 27,5″, todos os atletas de pontas passaram a usar rodas maiores e muitas fabricantes de renome abandonaram de vez a produção de aro 26″ nas linhas de ponta.

Isso tudo chamou a atenção para a chamada do artigo da BikeMag, que mencionei no início, mas principalmente por uma questão que ficou muito latente em minha mente na época:

“Mas qual é a dessa tal de aro 29″?”

Quis tirar a prova e pedi emprestada a “roduda” de meu amigo para um pedal. Naquela ocasião, a sensação foi de “é diferente”, mas eu não conseguia notar se de fato estava achando melhor ou pior. Só sentia que tinha um trator em minhas mãos.

Com o passar dos anos, os comentários acerca da bike de roda maior de meu colega foram passando de piadas para admiração. Aos poucos, um a um de meus amigos começava a comprar bicicletas aro 29″. Alguns 27,5″.

E em 2013 foi minha vez de dar adeus para a 26″:

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Essa foi minha primeira aro 29″. Uma simples Fuji Nevada 1.5. Na época eu me senti hiper realizado por ter aderido a tendência e estar andando com a bike do momento…… do momento? Mas, afinal:

Quando surgiram as mountain bikes de aro grande?

Desde os 11 anos de idade, um camarada chamado Kirk Pacenti tinha um sonho: queria fabricar bicicletas. Ele trabalhou por anos na Bontrager até sair e fundar sua própria mini montadora e fabricante de quadros – a Pacenti Cycle Design.

Pacenti era conhecido por ser revolucionário e foi em 2004 que ele começou o desenvolvimento das 650B (aro 27,5″), uma forma de transformar o mercado das aro 29″ que vinha ganhando espaço, principalmente nos Estados Unidos.

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O Boom – tanto das aro 29″ quanto das 27,5″ – aconteceu entre 2006 e 2007. Pronto. Repondido. As aro 29″ e 27,5″ nasceram há uns 10 anos. Correto?

Não… e a resposta vai te surpreender.

Como comentei no artigo sobre o Enlouquecedor Marketing do Mountain Bike (que por sinal é o que mais gostei de escrever até agora no Aventrilha, então se você ainda não leu, leia-o), a primeira bicicleta aro 27,5″ surgiu nos anos 80, criada pelo britânico Geoff Apps. Ela se chamava Aventura:

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Geoff com sua Aventura aro 27.5″

Sim… as bicicletas de aro maior já existem há mais de 30 anos.

E por que não viraram febre desde então? Por que não decretaram a “morte” das aro 26″ em 1984 e fim de papo? Nem precisaríamos ter pedalado até meados de 2010 com aros 26″, não é?

Como comento no outro artigo, a ideia é simples e praticada em muitas indústrias. Torne algo obsoleto na mente do consumidor e todos vão comprar o novo (sério, leia o artigo do marketing do mountain bike).

Ok. Vimos que as “rodudas” são muito mais antigas que pensávamos. Mas elas são melhores?

Bikes de aro maior são melhores?

Ai meu Deus…. a discussão eterna. Pior que debater se Palmeiras tem mundial, se Lula sabia ou se Speed é mais legal que MTB.

Enfim, eu mesmo nunca tinha dado bola pra essa pergunta, até esse dia:

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A foto acima foi tirada no meio do ano passado quando, a convite de Gustavo, um leitor do Blog, fui conhecer o fenomenal Horto Florestal de Batatais e seus mais de 70km de trilhas de XCO.

Na ocasião, Gustavo me emprestou uma Specialized aro 26″. E aquela experiência mexeu comigo.

As trilhas do Horto variam muito em nível técnico, mas em qualquer tipo de singletrack que eu passei naquele dia, eu simplesmente não conseguia notar a diferença tão absurda entre 26″ e 29″ que muitos clamam.

Então era hora de botar a questão a prova. Em novembro de 2016 eu fiz algo quase impensável para os dias de hoje:

Troquei minha aro 29″ por uma 26″

Não podia ficar com aquela sensação de “não sei dizer se é melhor” pela qual passei em Batatais. Resolvi passar a situação a limpo e troquei minha aro 29″ por uma 26″.

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Note que na foto ela esta até com um bageiro que utilizei na cicloviagem (onde fui atropelado no Chile).

Pode-se dizer que essa bicicleta está totalmente na contramão do que se entende por tendência no mountain bike moderno hoje em dia: mesa de 110mm, relação 3×9 e, claro, os infamous aros 26″.

Com essa troca feita, eu esperava saber responder a pergunta “qual é melhor: aro 26″ ou 29″?”.

E veja você: eu não pedalei só uma ou duas vezes com a aro 26″, eu realmente vendi uma bicicleta e comprei outra. Testei essa magrela em todo tipo de terreno: trilhas técnicas, estradões, até mesmo com 30kg de bagagens em alforges.

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E aí veio a conclusão que tento esperava para  o duelo 26″ X 29″ – qual é melhor:

Não…. tenho…. a… menor… ideia.

Isso mesmo. Eu não sei. Não deu pra saber. Chame-me de novato, inexperiente ou do que quiser, mas estou pedalando com ela há 3 meses e não sei o que dizer.

Talvez isso seja pelo fato de eu não ser um profissional. Se fosse, talvez já teria notado a diferença, como já foi mostrado em centenas de vídeos no youtube e artigos de blogs.

Mas se por um lado não sei dizer qual das duas é melhor, dá pra responder a seguinte questão:

Afinal, as aro 26″ morreram?

Para essa pergunta há um sim e um não:

Sim!

As aro 26″ morreram nas linhas de MTB XC e Enduro das bikes intermediárias e de ponta de montadoras renomadas.

Veja bem o que eu disse: Intermediarias e de ponta de montadoras renomadas.

Você que lê essa matéria provavelmente se enquadre nessa categoria. Tanto você que pedala com uma MTB da Sense com transmissão Acera quanto você que pedala com uma Cannondale Lefty: pra você, a aro 26″ morreu.

Duvida de mim? Então entre no portfólio da Oggi, Trek, Focus ou qualquer montadora que fabrique bikes para o mountain biker entusiasta. Não há uma aro 26″ sequer.

Aros 26″ convencionais realmente estão saindo de linha das montadoras para linhas de MTB intermediárias e de ponta. Mas e os aros 26″ também “morreram” para as bicicletas mais simples?

Não!

E não morrerão tão cedo. Veja abaixo a chinesa Flying Pigeon:

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Você está olhando não só para a bicicleta mais vendida no mundo no ano passado como o veículo mais vendido do mundo também! Sim. Vendeu-se mais dessa bicicleta que qualquer marca de carro, barco, moto ou avião. 15 milhões de unidades!!!!

Para se ter uma ideia, em 2015,  melhor ano da historia do mercado ciclístico no Brasil, vendeu-se 3.3 milhões de bikes (fonte). Essa Flying Pigeon é um único modelo e vendeu quase 5 vezes mais!

E adivinhe o tamanho da roda da dela? Acertou: 26″!

Ou seja…

A proposta desse artigo não era debater se aro 26″ é melhor que 29″ – até porque eu mesmo não tenho opinião formada sobre isso (estou pendendo levemente para a 29″ em alguns aspectos, devo admitir).

O tema é sobre a suposta morte das aro 26″ e  o que se vê atualmente é um desaquecimento brutal no mercado de mountain bikes intermediárias e de ponta em aros dessa dimensão. E como as feiras internacionais têm mostrado, esse movimento só tende a se fortalecer nos próximos anos.

“Mas, Fernando, eu tenho uma aro 26″! E agora, o que eu faço?”

O que você faz?

Ué… simples. O mesmo que eu faço com a minha aro 26″: Pedale!

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  • Giancarlo Alves Faria

    pois eu com 52 anos, que corro de MTB em provas amadoras, te falo, não troco a 26 pela 29, só saber qual percurso é mai apropriado pra mim, me desgasto um pouco mais, é claro, porque a rolagem da 29 é melhor… mas num percurso técnico, consigo ter alguma vantagem, um 29 bem leve e com um cara experiente e abusado, ganha, mas uma 26 bem acertadinha, vai dar muito trabalho…

  • Edmo Das Virgens

    Andei fazendo umas contas. Energia rotacional = momento de inercia x velocidade angular ao quadrado. Pois bem. Momento de inércia = massa x raio ao quadrado. Velocidade angular = velocidade linear ÷ 2 × 3.14 x r. Fazendo a conta de energia para velocidade linear constante, os raios se cancelam, sobra massa e velocidade. O que uma roda maior perde em inercia ganha na menor velocidade angular e vice versa, na mesma proporção. Em terreno linear, exemplo, asfalto, Uma 29 pesada não vai andar mais que uma 26 leve. A 29 consegue mais tração com menos pneu, a 26 consegue mais rigidez com a mesma massa. Tenho 26 29 e 27.5. A 26 de 10kg é a mais rápida. A 29 de 11kg roda muito bem mas tem menos graça. A 29 pesada não salva só por ser 29. Dessa troquei as rodas por 27.5 com pneu 2.6 pra brincar.

    O que vale pra energia é a massa!!!!

  • Cassiano Tartari

    Queria trocar o quadro da bike da namorada, que é aro 26″, por um quadro com geometria feminina e tamanho menor, advinha? Não existe mais, vasculhei todas as lojas de Floripa e internet, tu até acha em catálogo mas a venda mesmo, nada!

  • Guilherme Guimarães Guedes Bik

    Fernando, bom artigo! Estávamos neste final de semana, depois de ter corrido Araxá, justamente falando sobre isto. Para quem compete, independente do nível, 29 é um caminho sem volta. Atletas experientes estavam falando sobre a dificuldade que era vencer rockgardens com aro 26. Subidas técnicas então, com raízes, a 26 dificultava muito. Outro aspecto importante são as peças de reposição. Marcas como RockShox, Fox e DTSwiss já não fornecem mais peças de reposição para suspensões 26. Ou seja… 29 vai acabar sendo um caminho sem volta para todos!!! Daqui uns 4 ou 5 anos ter uma bike 26 vai ser igual ter uma bike com cubo ponta quadrada ou freios cantilever… será impossível!!!

  • Sergio Chociay

    Quero comentar que a minha primeira bike em 1974 era uma Caloi arco duplo e as rodas eram de aro 28, o mesmo acontecendo com as Monark barra circular que eram concorrentes diretas, e estranhei muito quando nos anos 90 e 2000 as bikes tiveram os aros reduzidos para 26, então essa discussão é bem antiga, porque os aros eram maiores, porque reduziram e agora aumentaram? Seriam modismos, ou a alteração de redução a pouco tempo atrás não vingou? Mesmo assim com a chegada dos aros 29 fiquei próximo ao meu passado das rodas aro 28